Psico-Socializando por Henrique Weber
Sexo sádico
Para quem é observador da Cultura e do comportamento humano, não sei se você leitor já percebeu, que ao longo dos séculos, a raça humana vem tentando, através do aparelho psíquico, domesticar os destinos da libido e seus investimentos. Desde os tempos do Renascimento (século XVI) que a gestualidade sexual colidia com uma moralidade, que procurava, por meio das Leis e da polícia, da Medicina e do diagnóstico, classificar como pecaminosos os que se desviavam da ordem (religiosa). A pessoa questionadora (que profanava) era classificada como portadora de um grande Mal, do diabólico. Muros foram construídos para aprisionar o devasso, o libertino, o portador de doenças venéreas, o louco.
À medida que a cultura foi evoluindo, o racionalismo filosófico da época foi desbancando o olhar religioso, trazendo transformações radicais na concepção de ser humano, e também, na concepção do espaço público e privado. O Louco, por exemplo, ganhou um novo status. Ele deixou de ser pecador para ser um desatinado (aquele que não tem a razão, que erra, que falha). Ao longo do tempo, ele deixou de ser um pária das ruas, foi colocado na prisão e, depois, passou a ser alvo de controle da psiquiatria e posto na internação hospitalar.Ele foi alçado a objeto de estudo social (institucional), e o ser-humano já era visto como portador de uma natureza inocente e pura.
Jean Jacques Rousseau (século XVIII), foi um dos grandes influenciadores europeus que transformou a concepção de ser humano nas áreas do Direito e das Ciências Humanas, no período do Romantismo. Para a ensaísta norte americana, Camile Paglia, Rousseau antecipou Freud ao inserir a sexualidade no desenvolvimento infantil da formação do caráter. Ao afirmar que a natureza humana se baseava na liberdade, ele reforçou a ideia da criança como um modelo de pureza à semelhança de Deus, ressaltando a liberdade sexual como uma manifestação sagrada. “O homem nasce bom e a sociedade o corrompe”, era preciso proteger a criança e purgar a sociedade para salvar a humanidade.
Em síntese, os moralistas renascentistas aprisionavam àquele que tinha uma licenciosidade sexual mais flexível, a fim de mantê-los longe da ordem social, e o Romantismo buscava a reafirmação da natureza humana (sexual) no meio social. A sociedade tirou o pecado do pecador, deixou de vê-lo como portador do Mal para ser alguém destituído da Razão. Deixou de ser criminoso, e foi se construindo um discurso psiquiátrico que prescreveu uma exclusão mais poderosa e sofisticada ao louco, mas que o protegia da violência institucional (como castigos corporais, humilhações, penas de morte nas prisões). O homem, objeto da psiquiatrização, se deparou com a liberdade sexual, às voltas com a sua libido e encarcerado numa neurose ou psicose mental.
Sigmund Freud foi um médico que revolucionou o tratamento psiquiátrico, e construiu a Psicanálise (na transição dos séculos XIX ao XX). Ele pensou um modelo de psiquismo que colocou os instintos como a força que anima a vida, desde a concepção neonatal até a morte. O Ser nasce e precisa dar vazão a sua Necessidade (de fome, afeto e proteção) através da sua mãe que nutre e o protege. No início, o bebe funciona pelo princípio do prazer, e este contato com sua mãe é semelhante a uma experiência de Nirvana (prazer supremo e alucinatório). Esta experiência satisfaz o bebe e cria marcas de afeto, organizando o aparelho mental para a construção da autoestima e da identidade. Completamente saciado, ele pode crescer, largar o seio da mãe e ganhar mais autonomia para explorar o mundo, introjetando este a si próprio. Se não tivesse esta experiência nirvânica, uma mãe que fosse indiferente ao bebê, e o abandonasse à própria sorte, ele entraria num imenso desamparo equivalente às Trevas, sendo perseguido por objetos psíquicos vorazes postos a aniquilá-lo. Mas, esta linda experiência do Nirvana possibilita a construção dos recursos psíquicos que Freud chamou de Id, Super-ego e Ego.
Estes três entes são como mapas mentais, onde o Ego (traduz-se como “eu”) é a parte consciente de si mesmo, que regula e administra as pulsões libidinais e a força dos seus dois outros senhores: o super-ego (acima do eu) que representa os valores da sociedade, da família, e a censura moral; e o Id que é uma instância que opera somente no prazer, que provoca a busca do bebê aos objetos do mundo, e com isso se sacia (descargas de tensões). O Id é um campo psíquico amoral e atemporal (não envelhece com o tempo), busca a saciação em estado puro, mas para isto, ele tem que passar pela fronteira dos outros dois, que colocam uma contra-força/ censura, impedindo de manifestar este desejo amoral. Só passa aquilo que é socialmente aceitável, ficando encerrado o que é proibido. O que mais assemelha ao Id são o sonhos. Então, quando você sonha com coisas loucas, quando alucina, é o Id se manifestando. Lembro que uma mulher atendente de caixa de supermercado reconheceu-me como psicólogo, e queria minha opinião sobre o que significava o seu sonho: “ela estava com uma bandeja com a cabeça e partes dos membros decepados do marido para serem servidos às visitas”.
Para Freud, o desenvolvimento psíquico do bebê na amamentação obedece a uma voracidade que denominou de fase oral - sádica. Este é o início da sexualidade infantil. Nessa fase, o bebê não tem um aparelho mental desenvolvido, responde por reflexos, sem um sistema de investimento libidinal organizado. Ele precisa se saciar e não vê no outro alteridade alguma. A amamentação é uma espécie de canibalização, que através do afeto com a mãe, vai organizando o psiquismo do bebê. Mas por que será que Freud deu este nome para a fase oral?
Marquês de Sade (Século XVIII) foi filósofo, escritor, que se caracterizou por uma literatura carregada de sexualidade libertina, ele foi o mais dionisíaco dos escritores. Sua ética não respeitava às Leis sociais constituídas, e era a pura voracidade ctônica da natureza. Ele rompia com o ideário religioso, conferindo um combate temido a qualquer ordem, era a ferocidade e a crueldade em seu estado natural: egoísta e orgástico. Porém, vai para além disto, não se balizava pelos direitos dos outros. Seu prazer era alucinatório, era excesso e busca pela morte. Mutilação, decapitações, faziam parte do seu gozo, um show de horror, era brutal. Não havia amor e nem amizade nas relações, o que imperava eram objetos de gozo ao bel prazer. Era o homem animal, canibal, pagão. Para Sade, a natureza do homem não era benevolente e nem humanitária, isto era produto da civilização e do medo.
O Inconsciente é carregado de violência (basta analisar os sonhos). O nosso psiquismo possuí diques que impedem a proliferação de impulsos sádicos puros. O que passa por este dique (para a consciência) é o que é socialmente aceito. Um impulso sexual pode ser adiado o quanto puder quando se está num ambiente que não é aceitável dar vazão. E esta defesa à satisfação pulsional cria a fantasia, a qual o psiquismo se utiliza como recurso para o aumento do desejo. Na ética sadiana, não existe este dique (repressão), não existe a fantasia, só existe a imaginação e o livre exercício da libido em excesso, tudo ao mesmo tempo, e que ofende as convenções e as leis. É o caleidoscópio das identidades perversas, onde a personagem Eugene é sodomizada enquanto estupra a sua mãe: “Aqui estou de um só golpe, incestuosa, adúltera, sodomita, e tudo isso numa moça que só perdeu a virgindade hoje!” (Paglia, “Personas sexuais”, p. 226).
A violência vivida hoje nas famílias é a revivescência das violências sofridas ao longo de gerações e que deixaram marcas. Estas pulsões sádicas extravasam através de atos que buscam uma satisfação substituta à satisfação orgástica, mas também é uma pulsão de morte que vem aniquilar todo o sujeito que está na posição de objeto de gozo. O ser humano muitas vezes inaugura pontes incestuosas, sodomizadas, voyerizadas, etc, para lidar com a sua excitação ou frustração sexual. A violência é consequência dos problemas sexuais, que encontramos desde a tenra infância, na fase sádica. Por exemplo: o filho que vive uma compulsão por drogas e reivindica todo o seu sustento aos seus pais. Uma voracidade que arranca as energias dos idosos a ponto de levá-los à morte; ou, o padrasto que expulsa os filhos da casa da mulher (por ciúmes), colocando cada filho na casa de um parente diferente; ou, o cara que ludibria uma mulher vulnerável, prometendo que vai cuidar dos filhos dela, desde que ela dê um filho para ele. Ela não quer, mas cede. E ao fazer a vontade dele, ele caí fora; ou, a mãe que despeja sua frustração nos filhos reafirmando que eles são a razão da infelicidade dela, e os perseguem, agridem, espancam, manipulam; ou, o pai que se sente impotente, e não pode extravasar sua frustração na sua mulher, por causa da raiva que nutre pelo feminino. Ele chega em casa e espanca todos os dias a sua filha; ou, a mulher que traz um homem da rua para vir morar com ela e os filhos. Tem relação sexual na frente deles e ignora os abusos sexuais dele com as crianças. Quando é descoberta, ela adota o tom protetor e chantageia as crianças com o desamparo, impondo o terror, para que eles mintam para a justiça a fim de evitar a sua prisão. Eu não sei o que é mais indigesto: imaginar as histórias sexuais de “Cento e vinte dias de Sodoma” (Sade) ou a insalubridade psíquica que produz a miséria sexual do nosso povo? Todas estas histórias revelam o caráter violador, mutilador e mortífero da violência no psiquismo.
Para trazer um último elemento sadiano, vamos pensar a orgia. Muito longe desse convencionalismo que imaginamos a orgia, Sade procura afirmar o desejo e a potência do feminino. A Era egípcia/romana traz Cleópatra (Século I a.C.), esta ninfomaníaca, que revela a mulher masculinizada que domina e agride, ela possuí o Falo. Então, nas práticas sexuais sádicas, a troca de gênero reafirma um travestismo ativo a sodomizar os homens. Talvez caiba uma interpretação para o sonho da mulher atendente de caixa de supermercado: ela está numa posição sádica, completamente ativa a ponto de despedaçar o seu marido com o seu sexo dentado e canibalizá-lo. E ainda, oferecer às visitas o corpo dele para ser sodomizado. Todo este bacanal carrega uma teatralização que talvez seja o único componente que consegue furar o dique da consciência, que passa pela censura super-egóica. Aqui, se presta o prazer escopofílico. Mas a imagem da violência pura não consegue passar, e se manterá no inconsciente que Sade conseguiu trazer para a Literatura. Não deve ter sido à toa que Freud deu este nome para compreender a fase da construção de objetos internalizados no inconsciente, a fase oral sádica. A ritualização sexual inunda o imaginário do sexo sadomasoquista como nós conhecemos: impessoal, primitivo e controlador de uma ansiedade em ser devorado pela sexo da mulher.
Penso que a cada Era se constrói doenças mentais novas. É através da libido e de seus investimentos que mapearemos novos tipos de neurose. A libido está entrando nos automatismos de uma Era compulsiva, e os objetos terão a função consumista, produzindo uma alienação bastante significativa. Porém, tudo isto é tema para outro debate. Espero que vocês leitores tenham se impressionado com Sade, mas saiba que fui muito comedido a revelar a literatura dele em termos de violência e depravação. Se conhecer é sempre o melhor remédio, mas principalmente tomar uma posição ativa no tratamento psicológico sem temer os seus próprios pensamentos. Como diz o ditado “de médico e louco todo mundo tem um pouco”.
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